Mais da metade dos brasileiros já viveu alguma forma de relação não monogâmica.

Esse é o dado central de uma pesquisa recente do Gleeden — plataforma voltada a encontros extraconjugais e relações não monogâmicas — realizada com usuários do Brasil, Argentina, Colômbia e México. No Brasil, 53% dos entrevistados afirmaram já ter tido alguma experiência fora da monogamia convencional.

É um número que merece atenção. Não porque seja surpresa — quem vive o meio liberal já sabe que o Brasil tem uma cultura sexual mais plural do que o discurso público costuma admitir. Mas porque o dado revela algo importante quando colocado ao lado das outras descobertas da mesma pesquisa: a maioria das pessoas que viveu experiências não monogâmicas ainda não desenvolveu as ferramentas emocionais e relacionais para navegá-las bem.

Isso tem nome. E tem solução.


O que os dados mostram

A pesquisa mapeou quais modelos de não monogamia os brasileiros já viveram:

Modelo Percentual
Relação aberta 29%
Infidelidade (não consensual) 28%
Polifidelidade 26%
Ménage à trois 25%
Poliamor 20%
Poligamia 17%
Swing 14%

Um dado chama atenção imediatamente: infidelidade e relação aberta aparecem com percentuais quase idênticos — 28% e 29% respectivamente. Isso significa que uma parcela significativa das experiências não monogâmicas dos brasileiros não foi consensual. Não foi acordo. Foi traição.

Isso importa porque revela um descompasso central: muitos brasileiros vivem práticas que se parecem com não monogamia, mas sem os fundamentos que as tornam saudáveis — consentimento, comunicação e respeito mútuo.

Quanto à percepção, 51% dos entrevistados definem não monogamia simplesmente como "relacionamento aberto", e 42% enxergam o modelo de forma positiva, contra 34% que têm visão negativa.


As barreiras que o dado revela

Apesar da experiência crescente, 89% dos brasileiros relatam enfrentar pelo menos uma barreira ao lidar com a não monogamia. Os três principais obstáculos são:

54% — crenças pessoais ou éticas. O julgamento internalizado ainda é a barreira mais comum. Não o julgamento dos outros — o da própria pessoa. A ideia de que querer mais de um relacionamento é errado, imoral ou sinal de incapacidade de amor verdadeiro é uma narrativa que muitos carregam mesmo quando a prática já contradiz a teoria.

41% — dificuldade de estabelecer limites e acordos. Saber que quer algo diferente da monogamia convencional é uma coisa. Saber articular o que quer, o que não quer, o que é inegociável e o que pode ser explorado é outra. A maioria das pessoas nunca aprendeu a ter esse tipo de conversa — e o meio liberal exige exatamente isso, desde o primeiro dia.

38% — falhas na comunicação eficaz. Comunicação é a base de qualquer relação não monogâmica saudável. E é, ao mesmo tempo, a habilidade que menos se ensina. Escola não ensina. Família raramente modela. E a maioria das pessoas chega ao meio liberal — ou à relação aberta, ou ao poliamor — sem nenhuma ferramenta concreta para ter as conversas que esses modelos exigem.

Outro dado que o levantamento trouxe é específico do Brasil: enquanto Argentina (78%), México (76%) e Colômbia (71%) priorizam a honestidade e abertura sobre outras relações, o Brasil registrou o menor índice — 64%. Somos o país da pesquisa onde as pessoas mais adotam "comunicação seletiva" — compartilhando apenas o que foi previamente acordado como necessário.


O que separa experiência de prática consciente

Ter vivido uma experiência não monogâmica e viver a não monogamia conscientemente são coisas muito diferentes.

Uma ménage que aconteceu numa viagem, um ménage que aconteceu porque alguém pressionou, uma relação aberta que nunca foi realmente combinada — todas essas experiências entram nos 53%. Mas nenhuma delas é, necessariamente, o meio liberal vivido com intenção, comunicação e cuidado.

O dado mais importante da pesquisa não é o 53%. É o que está dentro dele.

Porque quando 28% das experiências não monogâmicas dos brasileiros são infidelidade — não consenso — isso diz que muita gente está vivendo variações de relação aberta sem o "aberta" de verdade. Sem conversa. Sem acordo. Sem que os envolvidos saibam que estão num modelo não monogâmico.

Esse é o território mais perigoso que existe no universo das relações. Não porque a não monogamia seja perigosa — mas porque a não monogamia sem consentimento é simplesmente traição com outro nome.


O que realmente funciona — e o que os dados confirmam

As três barreiras identificadas na pesquisa — crenças pessoais, dificuldade de acordos e falhas de comunicação — não são obstáculos aleatórios. São exatamente os pilares que sustentam qualquer relação não monogâmica saudável quando trabalhados.

Consentimento verdadeiro — não o "tudo bem" dito para agradar, mas o acordo genuíno de quem quer de verdade. Esse é o primeiro filtro. Sem ele, não há base.

Autoconhecimento emocional — saber o que você sente, o que te incomoda, o que te move. O ciúme, a insegurança, o desejo de controle — tudo isso existe no meio liberal tanto quanto fora dele. A diferença é que aqui esses sentimentos aparecem com mais intensidade e menos espaço para ignorar.

Comunicação constante — não uma conversa antes de entrar e nunca mais. O meio liberal é um território vivo, que muda conforme as experiências acontecem. O que era tranquilo pode mudar. O que parecia impossível pode se transformar. Sem canais de comunicação ativos, o casal vai descobrindo essas mudanças da pior forma possível.

Respeito mútuo — pelo ritmo de cada um, pelos limites que mudam, pelo que o outro está sentindo mesmo quando não é o que você esperava que sentisse.

Esses quatro pilares não são filosofia. São prática. E são exatamente o que o meio liberal exige de quem quer viver esse universo com leveza e consciência.


Uma última coisa

53% já viveram. Mas quantos viveram bem?

Essa é a pergunta que os dados levantam e que o meio liberal ainda está aprendendo a responder. A experiência existe. O desejo existe. O que falta, para a maioria das pessoas, é o preparo para transformar curiosidade em prática sustentável — e prática em estilo de vida.

Se você chegou até aqui, já está fazendo a parte mais importante: pensando antes de agir. O próximo passo é entender o que você precisa para fazer isso bem.

O Código Liberal foi criado exatamente para esse momento — para quem quer entrar no meio liberal, ou está dentro e quer viver com mais consciência, preparo e cumplicidade.


Referências

  • Gleeden — Pesquisa "De boomers a GenZ: Como diferentes gerações enxergam a não monogamia" (dados do Brasil): mundodomarketing.com.br
  • Gleeden — Pesquisa sobre vida sexual e relações não monogâmicas dos brasileiros (Correio Braziliense / agosto 2025): blogs.correiobraziliense.com.br
  • Estado de Minas — "Mais da metade dos brasileiros é não monogâmica" (pesquisa Ashley Madison, agosto 2025): em.com.br
  • Correio Braziliense — "Poliamor, relação aberta, não monogamia: entenda as diferenças": blogs.correiobraziliense.com.br

Jana e Alex são o Casal Libido, de Petrolina-PE. Vivem e falam sobre o meio liberal há anos — com a honestidade de quem está dentro e a responsabilidade de quem quer que mais pessoas vivam esse universo com consciência.

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Alex Libido
Escrito por

Alex Libido

Responsável pelo blog e pelo marketing do Casal Libido e das festas Libi

Alex vive o meio liberal desde 2018 ao lado da Jana. No Casal Libido, escreve o blog e cuida do marketing do casal e das festas Libi — sem tabu e sem romantizar o que é complexo.

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