O nome que ela disse — parte 2: A conversa

A conversa não aconteceu naquela noite.

Naquela noite aconteceu silêncio — o tipo bom, de quem não precisa preencher o espaço porque o espaço já está cheio. Felipe dormiu com a mão no quadril de Renata. Ela ficou acordada mais tempo do que ele, olhando para o teto com aquela mistura de calma e antecipação de quem sabe que algo mudou, mas ainda não tem nome exato para o que mudou.

Na manhã seguinte, café. Pão. A rotina de sempre cobrindo a noite anterior com uma camada fina de normalidade.

Foi só na quinta-feira, três dias depois, que Felipe falou.


Eles estavam na cozinha. Ela lavava louça, ele encostado na bancada com o celular na mão que não estava realmente usando.

— Pesquisei sobre o Marcos — disse ele.

Renata desligou a torneira. Virou devagar.

— E?

— Ele é solteiro. — Felipe pausou. — Separou faz uns oito meses, se não me engano. A Cláudia do segundo andar me contou uma vez, acho que eu não prestei atenção direito na época.

Renata secou as mãos no pano de prato com uma lentidão que não era da tarefa. Ficaram se olhando por um momento — não de forma tensa, mas com aquela qualidade de atenção que aparecia entre eles quando o assunto era real.

— Por que você pesquisou? — ela perguntou.

— Porque você disse o nome dele — respondeu ele, simplesmente. — E eu fiquei pensando nisso desde sábado.

— Pensando o quê, exatamente?

Felipe pousou o celular na bancada. Cruzou os braços — não como defesa, mais como quem está organizando o que vai dizer.

— Pensando em como seria — disse. — Os três. Aqui. Com a gente.

O silêncio que veio depois tinha uma textura diferente do silêncio da noite de sábado. Mais carregado. Mais quente.

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— Você está falando sério — ela disse. Não era pergunta.

— Estou perguntando se você quer falar sobre isso — ele corrigiu. — Tem diferença.


A conversa durou duas horas.

Não foi linear — raramente essas conversas são. Teve desvios, teve risos em momentos inesperados, teve um silêncio de quase cinco minutos no meio em que os dois ficaram sentados à mesa sem dizer nada e isso foi, de alguma forma, necessário.

Eles falaram sobre limites. Sobre o que cada um queria e o que cada um definitivamente não queria. Sobre o que significaria — para eles dois, para o que tinham construído — abrir espaço para uma terceira pessoa. Não em teoria, mas nessa configuração específica: Marcos, do andar de baixo, que tomava cerveja com eles aos sábados e sabia o nome do gato.

Renata perguntou como Felipe se sentiria vendo ela com outro homem.

Ele ficou honesto: — Não sei ainda. Mas quero descobrir.

Felipe perguntou se ela queria Marcos por ele ser Marcos, ou se qualquer um serviria.

Ela ficou honesta: — É ele. Tem uma coisa nele que eu não sei explicar direito. Mas é ele.

Isso poderia ter complicado. Não complicou. Felipe assentiu devagar — o tipo de assentimento de quem está processando algo em tempo real e escolhendo ficar presente em vez de recuar.

No final, não havia um plano. Havia uma abertura — cuidadosa, curiosa, construída com atenção por dois adultos que se conheciam bem o suficiente para saber que a única forma de fazer isso direito era devagar.

— E agora? — ela perguntou.

— Agora a gente precisa conversar com ele — disse Felipe.


Três semanas depois, numa sexta-feira sem nenhum marco especial, Renata desceu as escadas e bateu na porta do 302.

Marcos abriu em trinta segundos. Jeans, camiseta, cabelo ainda molhado do banho. Ela percebeu que o coração estava mais rápido do que o normal e decidiu não fazer nada com essa informação além de notá-la.

— Oi — ela disse. — Você tem uns minutos?

Ele teve. Deixou ela entrar, ofereceu água, ficou parado na cozinha com aquela postura de quem não sabe exatamente o que está prestes a acontecer mas sente que é algo.

Renata foi direta — da forma que as coisas importantes merecem ser ditas.

Contou o que tinha acontecido. O que ela tinha sentido. O que ela e Felipe tinham conversado. O que eles estavam propondo — se ele quisesse, sem pressão, sem expectativa de resposta imediata, com todo o tempo que precisasse para pensar.

Marcos ficou quieto por um tempo que pareceu longo mas provavelmente não foi.

— O Felipe sabe que você está aqui? — perguntou.

— Foi ideia dele eu vir — respondeu ela.

Ele olhou para ela com uma atenção que não era nova — ela percebia aquele olhar faz mais tempo do que queria admitir — mas que agora tinha permissão de existir sem disfarce.

— Preciso pensar — disse ele.

— Claro — ela disse. E foi embora.


A resposta chegou dois dias depois, num domingo à tarde, na forma de uma mensagem curta no WhatsApp para Felipe:

“Estou disponível na sexta.”

Felipe leu, mostrou para Renata sem dizer nada. Ela leu duas vezes. Depois os dois ficaram olhando um para o outro com aquela mistura específica de desejo e nervosismo e algo que só pode ser descrito como cumplicidade — a sensação de estarem fazendo algo juntos, com escolha, com consciência, com o outro completamente do lado.

— Sexta — ela disse.

— Sexta — ele confirmou.


A sexta começou como qualquer sexta. Jantar, uma garrafa de vinho aberta antes de Marcos chegar, a conversa dos três no início com aquela leve solenidade de ocasiões que todo mundo sabe que são diferentes mas ninguém nomeia diretamente.

Marcos era mais calmo do que Renata esperava. Ou talvez não fosse calma — talvez fosse a mesma atenção que ela tinha notado nele desde sempre, só que agora direcionada sem filtro.

Foi Felipe quem quebrou o ritual não declarado. Levantou, foi até Renata, a beijou de um jeito que tinha intenção — não urgência, intenção. E depois olhou para Marcos e disse:

— Pode vir.

O que veio depois foi lento onde precisava ser lento e direto onde precisava ser direto. Renata estava no centro de algo que havia começado como fantasia num dildo numa noite de sábado e havia percorrido semanas de conversa honesta e duas horas de negociação numa cozinha e uma mensagem de dois dias de espera para chegar aqui — nesse quarto, nesses dois homens, nessa noite que era dela de formas diferentes e complementares.

Em algum momento ela olhou para Felipe — ele estava perto, presente, com aquela atenção intensa que ela conhecia — e o que viu no rosto dele não era o que havia temido que fosse. Era desejo. Era presença. Era o homem que a conhecia de cor querendo ver o que ela era quando tinha espaço para ser mais.

Ela fechou os olhos e deixou a noite continuar.


Muito mais tarde, quando Marcos havia ido embora e o apartamento era deles de novo, Renata e Felipe ficaram deitados no escuro em silêncio por um tempo.

Foi ela quem falou primeiro.

— Você está bem?

— Estou — ele disse. E havia algo na simplicidade da resposta que ela reconheceu como verdade.

— Foi o que você esperava?

Ele pensou por um momento.

— Foi diferente do que eu esperava — disse. — Melhor em partes que não imaginei. Mais intenso em outras. — Pausou. — Mas estou bem de verdade.

Ela se virou para ele. Ele se virou para ela.

— Obrigada — ela disse, sem explicar o quê exatamente. Ele entendeu assim mesmo.

— Obrigada você — respondeu ele.

Ficaram acordados mais um tempo — não conversando, só presentes um para o outro naquele silêncio que era deles e que nenhuma noite, por mais intensa que fosse, havia mudado.

Lá de baixo, muito distante, o elevador do prédio desceu.


A história continua. Acompanhe o blog do Casal Libido toda semana — e se a sua fantasia também está pedindo para sair do dildo e ir para a vida real, talvez seja hora de uma conversa mais séria. O Código Liberal foi feito para casais que estão nesse momento.

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