Post de convidado. Quem assina este texto é o Nico Grey, que grava conteúdo adulto profissional em São Paulo e conhece de perto a parte chata e essencial dessa rotina: combinados, arquivos e sigilo. Pedimos que ele escrevesse para o nosso público porque o tema nos preocupa. Ele fala em primeira pessoa; as notas do Casal Libido aparecem sempre destacadas.

Para gravar um vídeo em casal com segurança, combinem tudo por escrito antes, deixem de fora quem não autorizou aparecer, limpem os dados escondidos do arquivo, guardem fora da galeria e saibam o que fazer se ele vazar. Abaixo, cada passo.

Eu trabalho do outro lado da câmera. Gravo conteúdo adulto profissional a partir de São Paulo, quase sempre sozinho, e boa parte do meu trabalho não tem nada a ver com luz ou enquadramento. Tem a ver com combinados, arquivos e sigilo. É a parte chata, mas é ela que deixa todo mundo dormir tranquilo depois. Casais do meio liberal me perguntam bastante sobre isso, porque muita história ruim começa igual: um vídeo gravado no calor do momento, guardado de qualquer jeito, que um dia aparece onde não devia.

1. O que combinar antes de gravar?

No set, nada começa sem uma conversa. Eu pergunto o que a pessoa topa, o que não topa, o que pode aparecer no vídeo e o que fica de fora. Com casal é a mesma coisa. Antes de gravar, respondam juntos:

  • Vamos gravar só para nós ou pensamos em mandar para alguém?
  • Rosto pode aparecer? E tatuagem, marca de nascença, aliança?
  • Quem fica com o arquivo?
  • Se um de nós quiser apagar, o outro apaga, sem discussão?

Uma mensagem simples no WhatsApp entre os dois, com esses pontos, já vale. A regra mais importante é a última: qualquer um pode pedir para apagar, a qualquer momento, inclusive anos depois. Ninguém é obrigado a gravar, e um "não" não precisa de justificativa. Se entrar uma terceira pessoa na cena, o combinado vale para ela também, com a mesma conversa e o mesmo direito de pedir para apagar.

Se a ideia for mandar o vídeo para alguém, tenham cuidado redobrado com quem recebe. Perfis novos que pedem material rapidamente são o primeiro passo de golpes como o da Operação Arcanum, que extorquia casais do meio liberal com fotos e vídeos íntimos.

2. Posso gravar numa festa liberal?

Só com autorização, e ela tem dois níveis. O primeiro é o da organização: cada festa tem suas regras de casa, e muitas proibem celular ou qualquer gravação. Perguntem antes, sempre, e não presumam que o que valeu na festa passada vale nesta. O segundo é o de cada pessoa que pode aparecer: o OK da organização não substitui o OK de quem está em cena, nem de quem passa no fundo, num espelho ou numa porta aberta. Numa festa, todo mundo combinou estar ali, mas ninguém combinou ser filmado. Minha regra é simples: só aparece no vídeo quem concordou com o vídeo. Se houver qualquer dúvida sobre o fundo, não gravem.

A lei trata os dois momentos. Gravar cena de nudez ou ato sexual de caráter íntimo sem autorização dos participantes é crime pelo art. 216-B do Código Penal (detenção de 6 meses a 1 ano e multa). Divulgar sem consentimento de quem aparece também é crime, pelo art. 218-C (reclusão de 1 a 5 anos).

Nota do Casal Libido. Nas festas Libi, ninguém grava por conta própria: os únicos registros são os da nossa equipe, apenas de quem escolheu ser colaborador, e todo material sai censurado, sem expor a identidade de ninguém. Está nas regras das festas Libi. Em qualquer outra festa, consultem a organização.

3. O que o arquivo de vídeo revela sobre vocês?

Um vídeo de celular carrega mais do que a imagem. Muitas vezes ele guarda a data, o modelo do aparelho e até a localização de onde foi gravado. E o próprio enquadramento conta coisas: a janela com vista para um prédio conhecido, o quadro na parede, a cortina do quarto que já apareceu numa foto do Instagram. Antes de mandar qualquer arquivo para alguém:

  • Desliguem a localização da câmera nas configurações do celular (o nome da opção varia conforme o aparelho). No iPhone, ao compartilhar, toque em "Opções" e desmarque a localização.
  • Usem um aplicativo que apague os metadados do arquivo antes do envio.
  • Assistam ao vídeo inteiro uma vez, olhando só o fundo: reflexos, documentos, telas ligadas, a rua lá fora.

4. Como guardar e apagar de verdade?

Galeria do celular não é cofre. Ela sincroniza com a nuvem, aparece quando você mostra uma foto para alguém e vai junto se o aparelho for trocado ou roubado.

  • Guardem em uma pasta protegida por senha ou em um aplicativo de cofre, fora da galeria principal.
  • Confiram se a pasta não está sincronizando sozinha com o Google Fotos ou com o iCloud.
  • Ao apagar, lembrem da lixeira: aparelhos e serviços guardam os itens apagados por um tempo antes de removê-los de vez, e esse prazo varia. Consultem as regras de cada serviço que vocês usam e esvaziem a lixeira.
  • Se mandaram para alguém, combinem que essa pessoa apague também, e perguntem depois.

5. O que fazer se o vídeo vazar?

Mesmo com cuidado, acontece. O mais importante é agir rápido e não pagar ninguém que esteja ameaçando vocês, porque pagar raramente encerra a chantagem. Mais detalhes no nosso post sobre o que fazer quando a vida liberal é exposta.

  • Guardem provas: prints com o endereço da página, data e hora, e o perfil de quem publicou ou ameaçou.
  • Peçam a remoção direto ao site ou à rede social. Pelo art. 21 do Marco Civil da Internet, a plataforma pode ser responsabilizada se não remover, após ser avisada pela própria vítima, conteúdo com nudez ou atos sexuais de caráter privado divulgado sem autorização.
  • Peçam ao Google para tirar o conteúdo dos resultados de busca. Existe um formulário próprio para imagens íntimas publicadas sem consentimento, na Central de Ajuda do Google Pesquisa.
  • Usem o StopNCII.org. Ele ajuda a impedir que o mesmo vídeo seja republicado em várias plataformas parceiras, sem que vocês precisem enviar o arquivo a ninguém.
  • Procurem a SaferNet Brasil, que recebe denúncias e orienta vítimas de crimes na internet, com sigilo.
  • Registrem boletim de ocorrência. Muitos estados têm delegacia especializada em crimes cibernéticos, e a maioria tem delegacia virtual.

Resumo: gravar com segurança em cinco pontos

  1. Combinem por escrito, e qualquer um pode pedir para apagar a qualquer momento.
  2. Só aparece no vídeo quem concordou, e em festa só se a organização autorizar.
  3. Desliguem a localização e confiram o fundo antes de enviar.
  4. Guardem fora da galeria e esvaziem a lixeira.
  5. Se vazar, não paguem: guardem provas e peçam a remoção.

Leia também: Operação Arcanum: como o golpe funcionava e como se proteger.

Fontes

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Nico Grey
Artigo convidado · escrito por

Nico Grey

Produtor independente de conteúdo adulto

Nico Grey é produtor independente de conteúdo adulto e grava a partir de São Paulo, com foco em consentimento e em deixar as pessoas à vontade no set.

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