Compersão é a alegria de ver o parceiro feliz com outra pessoa. É o prazer genuíno de saber que quem você ama está sentindo prazer, seja numa conversa boa, num flerte ou numa noite inteira com alguém que não é você. O termo é usado no meio liberal, no poliamor e nos relacionamentos abertos para descrever a emoção oposta ao ciúme: em vez de ameaça, a pessoa sente orgulho, excitação ou contentamento. Ela não é uma obrigação nem um pré-requisito para viver o meio liberal, e também não precisa aparecer o tempo todo. Costuma surgir aos poucos, em momentos específicos, e cresce com segurança, comunicação e prática. Neste artigo explicamos o que é compersão, de onde vem a palavra, no que ela difere da tolerância e da ausência de ciúme, como aparece no dia a dia e como desenvolvê-la sem forçar.

De onde vem a palavra compersão?

A palavra foi criada por integrantes da Kerista, uma comunidade poliamorosa de San Francisco, nos Estados Unidos, que existiu de 1971 a 1991. Segundo ex-membros, o termo surgiu em 1980, numa sessão do grupo em que pediram uma palavra para a emoção oposta ao ciúme. Alguns dicionários situam a criação no início dos anos 1990, então as fontes divergem quanto à data. O que não muda é a ideia central: sentir alegria com a alegria de quem se ama. Em português, a palavra aparece como compersão, adaptação do inglês compersion, e ainda é pouco conhecida fora das comunidades não monogâmicas. Isso ajuda a explicar por que tanta gente vive a experiência sem saber nomeá-la. E nomear importa, porque quem não tem a palavra tende a confundir compersão com aceitação, resignação ou simples ausência de incômodo, e acaba cobrando de si mesmo um sentimento que nem sabe reconhecer.

Qual a diferença entre compersão e tolerância?

Tolerar é suportar uma situação sem se sentir bem com ela; sentir compersão é se alegrar de verdade com ela. A diferença parece sutil, mas muda tudo. Muitos casais que estão começando confundem as duas coisas: aceitam a dinâmica porque combinaram, seguram o desconforto e chamam isso de compersão. Dá para tolerar por bastante tempo, e até com elegância, mas tolerar sem sentir nada de bom tem um custo que aparece no médio prazo, em irritação acumulada, silêncios estranhos depois das festas e conversas que ninguém quer ter. Compersão é outra categoria de experiência: o prazer vem por causa do prazer do outro, não apesar dele. Isso não significa que tolerar seja errado. A tolerância pode ser um ponto de partida honesto, desde que vocês saibam que é isso que estão vivendo e digam isso um ao outro, sem fingir que já chegaram mais longe.

Quem sente compersão deixa de sentir ciúme?

Não. Compersão e ciúme não funcionam como um interruptor, em que a presença de um desliga o outro. São duas respostas emocionais que podem aparecer na mesma noite, às vezes no mesmo minuto. É perfeitamente possível sentir uma pontada de ciúme e, um segundo depois, uma alegria genuína ao ver o rosto de quem você ama em êxtase. Uma não invalida a outra. O erro mais comum é achar que quem ainda sente ciúme não evoluiu o suficiente para sentir compersão, e isso é impreciso e cruel com quem está aprendendo. Como já argumentamos aqui, quem diz que nunca sente ciúme geralmente está mentindo, para os outros ou para si mesmo. A maturidade não está em eliminar o ciúme, e sim em não deixar que ele seja a única voz na sala, abrindo espaço também para o que existe de bom na experiência de quem você ama.

Como a compersão aparece na prática?

Quase sempre nos detalhes pequenos, antes das cenas grandes. Aparece no orgulho de ver o parceiro sendo desejado por outra pessoa e no prazer de assistir, literalmente com os olhos, à expressão de quem você ama enquanto é tocado por alguém que não é você. É o mecanismo emocional por trás de boa parte das dinâmicas hotwife e cuckold: quem acompanha a situação não está apenas aguentando, está, na melhor versão dessa dinâmica, genuinamente excitado com o prazer do outro. Mas a compersão não se restringe a esses contextos. Ela também aparece em coisas menores, como o parceiro que sorri de verdade quando o outro conta, animado, sobre uma conversa boa que teve numa festa, mesmo sem ter acontecido nada além da conversa. Quem quiser entender melhor esses termos pode consultar o nosso guia de vocabulário do meio liberal.

É possível aprender a sentir compersão?

Sim. Compersão não é um traço de personalidade que algumas pessoas têm e outras não; é uma habilidade que se constrói. O discurso popular costuma apresentá-la como dom, como se fosse característica de quem nasceu para o meio liberal, e isso é conveniente e falso. Ela cresce com trabalho em três frentes. A primeira é a segurança pessoal: quem se sente seguro na relação sente menos ameaça diante do prazer alheio. A segunda é a comunicação honesta sobre o que se sente no momento, inclusive quando o que se sente não é bonito. A terceira é a prática repetida, porque a compersão cresce com exposição, não com esforço de vontade isolado. Tratar compersão como dom tem ainda um efeito colateral: casais que ainda não a sentem acham que estão fazendo algo errado, quando na verdade só não tiveram tempo, segurança e prática suficientes.

Preciso sentir compersão para viver o meio liberal?

Não. Compersão é resultado, não pré-requisito. Casais que se cobram sentir compersão antes de estarem prontos costumam forçar uma performance emocional que não é real, e isso é pior do que simplesmente admitir o ciúme que ainda está ali. Ninguém precisa entrar numa festa já sentindo alegria pelo prazer do outro, e sentir ou não sentir compersão não é prova de que o relacionamento está funcionando bem ou mal. O que vale é tratar o assunto como conversa, não como meta: vocês podem perguntar um ao outro o que sentiram, o que foi bom de ver, o que ainda incomoda. Existe um prazer específico e genuíno em ver quem você ama feliz com outra pessoa, e ele tem nome. Como qualquer coisa boa, vale mais a pena construí-lo devagar do que fingir que já está pronto.

Se o ciúme ainda é a voz mais alta entre vocês, comecem por Ciúme na véspera da festa: o sinal de que vocês precisam de um combinado melhor.

Referências

Alex Libido
Escrito por

Alex Libido

Responsável pelo blog e pelo marketing do Casal Libido e das festas Libi

Alex vive o meio liberal desde 2018 ao lado da Jana. No Casal Libido, escreve o blog e cuida do marketing do casal e das festas Libi — sem tabu e sem romantizar o que é complexo.

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