Todo ano aparece uma manchete nova dizendo que o brasileiro está abandonando a monogamia. E todo ano ela é compartilhada como se fosse a primeira.

Os números existem, e boa parte deles é real. O problema é o jeito como são lidos. Circulam sem contexto, sem dizer quem perguntou, a quem perguntou e o que exatamente foi contado como "não monogamia". Este texto reúne num lugar só o que se sabe hoje sobre o tema no Brasil: as pesquisas, as decisões judiciais e as ressalvas que quase nenhuma manchete faz. As fontes estão no final, para quem quiser conferir.

Os números, em ordem

2023, a teoria. O Gleeden divulgou o "Mapa da Não Monogamia no Brasil", com 1.036 brasileiros de diversos estados civis, idades e localidades, ouvidos entre 23 de outubro e 1° de novembro. 51% dos entrevistados disseram que prefeririam viver uma não monogamia, contra 13% que optaram por ser monogâmicos e infiéis. Quase metade (47%) considerou as relações não monogâmicas boas, já que fazem felizes os envolvidos. Mas a própria plataforma resumiu o resultado como um contraste: na teoria, os brasileiros apoiam as relações não monogâmicas; na prática, preferem a infidelidade. App divulga “O Mapa da Não Monogamia Brasil”, que entrevistou mais de mil pessoas sobre o tema - Gazeta de Pinheiros +3

2024, a Geração Z. Uma pesquisa do Ashley Madison em parceria com o YouGov, feita com jovens brasileiros de 18 a 29 anos, mostrou que 62% estão dispostos a tentar relacionamentos abertos, número maior que o de todos os outros países do levantamento, entre eles Reino Unido, Estados Unidos, México, Espanha e Canadá. A amostra tem peso: foram 17.096 adultos em dez países, dos quais 1.009 no Brasil, sendo 350 entre 18 e 29 anos. A mesma geração quer discrição: 67% dos brasileiros da Geração Z acham que a vida sexual deve ser tratada de forma discreta. Não monogamia em alta: 62% dos jovens teriam um relacionamento aberto | Metrópoles +3

2024, o continuum. Em agosto, outro estudo do Ashley Madison apontou que 48% dos brasileiros se identificam como totalmente monogâmicos. O recorte de gênero é o dado mais interessante: mais mulheres (29%) do que homens (19%) estão em relacionamentos não monogâmicos. As motivações também diferem. Entre as mulheres, 43% buscam aumentar o prazer sexual, contra 57% dos homens. E 24% das mulheres dizem que tentaram a monogamia e não funcionou, enquanto só 17% dos homens dizem o mesmo. 15% dos entrevistados sentiram melhora na relação com o parceiro principal depois de abrir o relacionamento, e 73% dos casais pesquisados têm filhos. Menos da metade dos brasileiros são totalmente monogâmicos, diz estudo | CNN Brasil +3

2025, a experiência. Uma nova pesquisa do Gleeden trouxe o número que mais circula: 53% dos brasileiros já tiveram algum tipo de relação não monogâmica. Foram consideradas relações abertas (29%), infidelidade (28%), polifidelidade (26%), ménage à trois (25%), poliamor (20%), poligamia (17%) e swing (14%). A percepção se divide: 42% enxergam a não monogamia como algo positivo, contra 34% que a veem como negativa. E quase ninguém passa ileso. 89% relatam pelo menos uma barreira, entre elas questões éticas e crenças pessoais (54%), o estabelecimento de respeito e limites (41%) e a comunicação eficaz (38%). Amor livre! Mais da metade dos brasileiros já viveu a não monogamia +3

2026, a busca. Reportagens publicadas em abril falam em aumento de 340% nas buscas por "poliamor" no Google Brasil entre 2019 e 2025, mais de 2,1 milhões de brasileiros identificados como praticantes de não monogamia ética e 68% dos jovens entre 18 e 35 anos "abertos a entender" o modelo poliafetivo. Aqui cabe a primeira ressalva: as reportagens não dizem quem produziu o levantamento nem como ele foi feito. Tratamos esses números como indicador de tendência, não como censo. Estadão MT

O que a Justiça já disse

O caminho jurídico é mais antigo do que parece, e bem menos linear.

Em 2012, um homem e duas mulheres que viviam juntos havia três anos oficializaram a união num cartório de notas de Tupã (SP), por escritura pública de união poliafetiva. Em 2015, o 15º Ofício de Notas do Rio de Janeiro oficializou a primeira união entre três mulheres de que se tem notícia no Brasil. Em 2016, veio outro caso em São Vicente (SP). Clipping – G1 (SP) - União poliafetiva registrada no cartório de Tupã perde validade jurídica após decisão do CNJ - Colégio Notarial do Brasil +2

Em junho de 2018, o Conselho Nacional de Justiça fechou essa porta. Por 8 votos a 6, o CNJ impediu que os cartórios do país lavrem qualquer documento que declare união estável entre mais de duas pessoas, e as escrituras anteriores perderam a validade. Agência BrasilAgência Brasil

A via que sobrou é o Judiciário, caso a caso. Em novembro de 2025, a Justiça de Jataí, no sudoeste goiano, reconheceu a união estável de um trisal formado por três homens, numa decisão inédita no estado. O pedido foi protocolado pelo Núcleo de Prática Jurídica da Universidade Federal de Jataí, e a sentença fixou efeitos jurídicos a partir de dezembro de 2019, data de início da convivência. Mas a decisão não virou regra. Como explicou a professora que atuou no caso, muitos juízes entendem que não é possível reconhecer a união estável entre três pessoas, apenas um contrato de natureza civil. Justiça reconhece união estável de trisal de três homens em Goiás +3

Em quatorze anos, o país foi do reconhecimento em cartório à proibição, e da proibição a sentenças isoladas. O debate avançou. A segurança jurídica, ainda não.

O que os números escondem

Quem está perguntando. Gleeden e Ashley Madison não são institutos de pesquisa. São plataformas de encontros, historicamente ligadas a relações extraconjugais. O Ashley Madison só anunciou, em fevereiro de 2026, o reposicionamento global como app de encontros discretos, afastando-se do foco em pessoas casadas. Isso não torna os números falsos. Mas eles precisam ser lidos pelo que são: amostras produzidas por quem vende a alternativa à monogamia tradicional. O levantamento sobre a Geração Z, feito com o YouGov, é o mais robusto do conjunto. Wikipedia

"Não monogamia" inclui traição. No dado dos 53%, infidelidade (28%) e relacionamento aberto (29%) aparecem praticamente empatados. O swing, que é uma das práticas do meio liberal, fica com 14%. A manchete soma consenso e traição no mesmo balde. Uma coisa é ter vivido alguma experiência fora da monogamia. Outra, bem diferente, é viver uma não monogamia consensual. Destrinchamos essa diferença em Mais da metade dos brasileiros já viveu uma experiência de não monogamia.

Abertura não é prática. "Consideraria" (62%), "abertos a entender" (68%), "prefeririam" (51%): quase todos os números mais citados estão no condicional. Medem atitude, não comportamento. A pesquisa de 2023 mostra o que fica no caminho. Os brasileiros disseram preferir a infidelidade porque não querem que o parceiro fique com mais ninguém (44%), porque é melhor não saber (30%) ou por medo de perder o companheiro (24%). Gazeta de Pinheiros

Crescer não é saber fazer. Aqui talvez esteja o dado mais revelador de todos. Na comparação regional, Argentina (78%), México (76%) e Colômbia (71%) demonstram forte inclinação para o diálogo transparente sobre outras relações, enquanto o Brasil fica atrás, com 64%. O interesse cresce mais rápido que a habilidade de conversar sobre ele. E, como mostramos em Relacionamento Aberto Está em Alta — e a Ciência Explica Por Que a Maioria Não Dá Certo, é justamente essa lacuna que derruba a maioria das tentativas. Metrópoles

Não monogamia, poliamor, relacionamento aberto e meio liberal

Os termos se misturam nas manchetes, e a confusão tem consequências. Quem chega ao meio liberal esperando uma coisa e encontra outra costuma se frustrar.

Não monogamia é o guarda-chuva. Abrange qualquer configuração que saia da exclusividade entre duas pessoas.

Poliamor é uma configuração dentro desse guarda-chuva: vínculos afetivos com mais de uma pessoa, com conhecimento e consentimento de todos. O que se divide é o amor, não só o sexo.

Relacionamento aberto mantém um vínculo amoroso central, com permissão para experiências sexuais fora do casal. O envolvimento afetivo com terceiros, em geral, não é o objetivo.

Meio liberal é a comunidade que habitamos, com etiqueta, cultura e espaços próprios. O swing é uma das práticas dentro dele, não um sinônimo.

Para o vocabulário completo, veja o nosso guia dos termos do meio liberal.

Por que o interesse cresce

Informação e comunidade. Há dez anos, quem tinha curiosidade garimpava fóruns obscuros. Hoje há perfis, podcasts, cursos e grupos que fazem as pessoas se sentirem menos sozinhas com o que desejam.

Vocabulário emocional. Conceitos como limite, apego e comunicação não-violenta chegaram às redes junto com o debate sobre novos formatos de relação. As duas conversas se alimentam.

O esgotamento do modelo nuclear. Para o sexólogo e psicólogo Wantuir Rock, o crescimento é em parte "uma resposta ao esgotamento do modelo nuclear", com o peso de sustentar casa, filhos e apoio emocional recaindo sobre só duas pessoas. Ele afirma que a demanda por sessões voltadas a configurações poliafetivas triplicou nos últimos três anos. 93fm Estadão MT

As mulheres puxando a fila. Os dados de gênero se repetem entre as pesquisas: mais mulheres em relações não monogâmicas, e mais mulheres dizendo que a monogamia simplesmente não funcionou para elas.

O que isso muda para quem vive o meio liberal

O crescimento aparece até longe dos grandes centros. Em Petrolina, a comunidade cresceu 51% em três anos segundo dados que o Sexlog nos cedeu. E são as pessoas acima de 55 anos que mais praticam swing no Brasil, não os jovens que as manchetes imaginam.

Visibilidade tem dois lados. O bom é que mais gente chega com vocabulário e informação prévia, e o nível da conversa subiu. O que exige atenção é que mais gente também chega despreparada: leu sobre o assunto, mas ainda não processou o que vai sentir quando a teoria virar noite de sábado.

Foi esse diagnóstico que nos levou a criar o Código Liberal. Não porque o meio liberal seja perigoso, mas porque ele exige um preparo que a maioria subestima. E, para casais que já estão dentro e sentem que o conflito passou do ponto, existe a Libi Mentoria.

Uma última coisa

"Mais da metade dos brasileiros já viveu alguma forma de não monogamia" é uma frase verdadeira e incompleta.

A versão completa é outra. Mais da metade já viveu, e uma parte grande disso foi traição, não acordo. O interesse cresce, mas a habilidade de conversar sobre ele cresce mais devagar. A lei ainda não decidiu o que fazer com quem ama de outro jeito.

O Brasil já está questionando a monogamia. O desafio agora é aprender a fazer isso com honestidade.

Referências

Alex Libido
Escrito por

Alex Libido

Responsável pelo blog e pelo marketing do Casal Libido e das festas Libi

Alex vive o meio liberal desde 2018 ao lado da Jana. No Casal Libido, escreve o blog e cuida do marketing do casal e das festas Libi — sem tabu e sem romantizar o que é complexo.

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