A Reunião de Negócios

Dois casais elegantes numa reunião de negócios numa sala de reunião de um prédio com vista para a ceidade

Fernanda tinha 38 anos e uma regra de ouro: nunca misturar prazer com trabalho.

Ela havia quebrado essa regra exatamente uma vez — há quatro anos, numa convenção em São Paulo, com um executivo de Curitiba de quem ainda lembrava o cheiro. Mas isso era irrelevante agora. Agora ela estava sentada numa sala de reunião no 18º andar da sede da Brava Incorporações, esperando o cliente que seu marido havia marcado sem consultá-la.

— É uma oportunidade de ouro, Fer — Rodrigo tinha dito na manhã daquele dia, enquanto amarrava a gravata na frente do espelho. — O casal tem interesse em dois imóveis. Você fecha a venda, a gente comemora em Florianópolis no fim de semana.

Rodrigo era corretor sênior. Fernanda era arquiteta, responsável pelos projetos personalizados. Quando apareciam clientes com dinheiro de verdade, os dois trabalhavam juntos. Era uma parceria que funcionava dentro e fora do escritório — catorze anos de casamento e uma cumplicidade rara que os dois cultivavam com cuidado.

Ela olhou o relógio. 14h07. Os clientes tinham sete minutos de atraso.

A porta da sala se abriu.

Fernanda levantou os olhos dos papéis e sentiu algo se deslocar levemente dentro dela — aquela sensação discreta e inconveniente de quando o corpo registra uma presença antes do cérebro processar.

O homem que entrou primeiro tinha lá seus 42 anos: alto, cabelo escuro levemente grisalho nas têmporas, terno azul escuro sem gravata. Bonito de um jeito que parecia descuidado, como se ele não soubesse ou não ligasse. Atrás dele, uma mulher de uns 39 — pele morena, cabelo preso num coque solto com alguns fios escapando, vestido verde musgo que não tentava esconder nada.

— Desculpem o atraso — disse o homem, estendendo a mão. — Marcelo Vaz. E essa é minha esposa, Isabela.

— Fernanda Coutinho. — Ela apertou a mão dele por um segundo a mais do que o necessário. — Meu marido Rodrigo está chegando, teve uma ligação de última hora.

Isabela cumprimentou com um sorriso que era quase uma provocação — não de má fé, mas do tipo que diz eu sei exatamente o efeito que causa.

Os três se sentaram. Fernanda abriu a pasta com os projetos e começou a apresentação com a competência de sempre, mas havia algo no ar da sala que não estava nos slides.

Marcelo fazia perguntas inteligentes. Isabela complementava com detalhes que mostravam que ela entendia tanto quanto o marido — talvez mais. De vez em quando os dois trocavam um olhar curto, quase telegráfico, a linguagem privada dos casais que se conhecem de verdade.

Fernanda reconheceu aquilo. Era o que ela e Rodrigo tinham.

Rodrigo chegou quinze minutos depois, pediu desculpas, e a reunião seguiu. Mas Fernanda percebeu — e sabia que Rodrigo também havia percebido, porque ele sempre percebeu — que havia uma corrente elétrica baixa passando debaixo de toda aquela conversa sobre metragem quadrada e acabamentos premium.


O jantar foi ideia de Rodrigo.

— Pra fechar bem — ele disse para Fernanda, cobrindo o microfone do celular com a mão. Ela concordou com a cabeça.

O restaurante ficava no Pinheiros, pequeno, com luz âmbar e música italiana ao fundo. Uma garrafa de Barolo chegou antes dos pratos. Isabela provou, fechou os olhos por um segundo.

— Perfeito — ela disse. E olhou para Fernanda quando disse isso, não para o garçom.

A conversa se abriu com o vinho. Marcelo e Rodrigo descobriram que haviam estudado no mesmo colégio em Recife, com quatro anos de diferença. Isabela era de Belo Horizonte, havia se mudado para São Paulo por causa do marido e nunca havia se arrependido — a cidade te engole, mas de um jeito gostoso, ela disse. Fernanda riu, genuinamente.

Quando a segunda garrafa chegou, as cadeiras já estavam levemente mais próximas.

— Vocês têm uma dinâmica interessante — Marcelo disse em certo momento, olhando para os dois. — Como casal e como parceiros de trabalho. Não deve ser fácil.

— Depende do dia — Rodrigo disse, sorrindo. — Mas a gente descobriu que funciona quando há confiança total. Você confia, você pode tudo.

Isabela colocou o cálice na mesa devagar.

— Confiança total — ela repetiu. — Essa é a chave de muita coisa, não é?

Houve uma pausa. Não desconfortável — mais como quando todos na mesa sabem que a conversa acabou de virar uma esquina.

— Inclusive de coisas que a maioria dos casais não tem coragem de tentar — Fernanda disse.

Ela não havia planejado dizer isso. Mas havia dito, e agora estava dito, e Rodrigo estava olhando para ela com aquele olhar específico — meio orgulhoso, meio aceso.

Marcelo inclinou levemente a cabeça.

— Como, por exemplo?


O apartamento de Marcelo e Isabela ficava a seis minutos de táxi.

Era um andar alto, com vista para a cidade acesa. A sala tinha pé-direito duplo e uma adega embutida que Rodrigo comentou com genuíno entusiasmo enquanto Marcelo abria um Malbec que tinha guardado para uma ocasião especial. Essa parece boa o suficiente, ele disse.

Fernanda ficou na varanda com Isabela. O vento estava quente para outubro.

— Você fez isso antes? — Isabela perguntou. Direta, sem cerimônia.

— Uma vez. — Fernanda olhou para as luzes lá embaixo. — Mas foi diferente. Menos… escolhido.

— E agora?

Fernanda virou o rosto para ela.

— Agora estou aqui por vontade própria.

Isabela sorriu. Colocou a mão no corrimão, perto da mão de Fernanda — não tocando, apenas perto. O suficiente para Fernanda sentir o calor.

— Eu fico curiosa desde a reunião — Isabela disse, a voz baixando um tom. — Você tem uma boca muito bonita.

Fernanda sentiu o estômago contrair de um jeito que não era desconforto.

— E você tem um jeito muito direto de falar.

— Marcelo diz que isso é meu melhor defeito.

Elas riram. E quando o riso passou, a distância entre elas era menor do que antes.

Isabela foi a primeira a se mover — uma aproximação lenta, que dava tempo de recuar. Fernanda não recuou. O beijo começou suave, quase uma pergunta, e quando Fernanda respondeu, Isabela aprofundou. Tinha gosto de Malbec e de batom discreto, e as mãos dela subiram pelo quadril de Fernanda com uma naturalidade que fez a outra respirar fundo pelo nariz.

— Acho que a varanda esfriou — Marcelo disse atrás delas.

Os dois homens estavam na porta de vidro. Rodrigo com o cálice na mão, olhando para a esposa com uma intensidade que Fernanda conhecia de memória — aquela mistura de desejo e cumplicidade que só catorze anos constroem.

— Acho que a sala está mais quente — Isabela respondeu, sem virar.


O quarto de Marcelo e Isabela era amplo, com iluminação baixa que alguém havia pensado com cuidado. Fernanda notou o detalhe — eles fizeram isso antes, pensou, e a ideia não a perturbou. A ideia a acendeu.

Rodrigo ficou de pé perto da janela enquanto Isabela levava Fernanda até a cama. O vestido verde caiu no chão com uma praticidade elegante. Isabela tinha o corpo de quem se cuida sem obsessão — curvas reais, pele lisa, um sinal escuro perto do ombro esquerdo que Fernanda beijou porque estava lá e parecia querer ser beijado.

Marcelo se aproximou de Rodrigo. Os dois observaram por um momento — aquele prazer específico do homem que vê a esposa ser desejada por outra pessoa e sente orgulho em vez de ameaça. Depois Marcelo disse algo baixo para Rodrigo, e Rodrigo riu, e os dois se encaminharam para a cama.

O que se seguiu tinha a qualidade das coisas que acontecem quando adultos inteligentes decidem, com clareza e sem culpa, querer se dar prazer.

Fernanda estava deitada de costas quando Rodrigo se ajoelhou ao lado dela e escorregou a mão pelo seu ventre — o toque do marido, familiar e ainda capaz de fazer o corpo dela responder como se fosse novo. Isabela estava entre as pernas de Fernanda, a língua trabalhando com uma precisão que fez Fernanda arquejar e segurar os lençóis. Do canto do olho ela via Marcelo de joelhos atrás de Isabela, as mãos na cintura dela, entrando devagar.

— Olha pra mim — Rodrigo disse.

Fernanda olhou. Ele estava duro, os olhos escuros, aquela expressão de quando ele a quer de um jeito que vai além do físico. Ela abriu a boca e ele deslizou para dentro, e por alguns minutos o quarto foi apenas respiração e gemidos sobrepostos — a voz grave de Isabela crescendo enquanto Marcelo aumentava o ritmo, e a própria voz de Fernanda abafada e depois não tão abafada assim.

Ela gozou primeiro. Com a língua de Isabela e a mão de Rodrigo no seu cabelo e os sons dos outros dois como trilha sonora. O orgasmo veio longo, ondulado, o tipo que faz as pernas tremerem depois.

Rodrigo deitou ao lado dela enquanto ela respirava. Isabela virou, beijou Fernanda de um jeito caloroso e depois se levantou e foi para Rodrigo sem perguntar — havia uma fluidez no casal que tornava as coisas naturais. Marcelo se deitou ao lado de Fernanda. Ele era mais quieto que o esperado, atento, o tipo que pergunta você está bem? com os olhos antes de qualquer coisa.

— Estou ótima — ela disse, sem que ele tivesse perguntado em voz alta.

Ele sorriu. Passou o dedo pelo queixo dela.

— Rodrigo tem sorte.

— A gente tem sorte um do outro — ela corrigiu.

Quando Marcelo a beijou, foi diferente — novo, com aquela curiosidade do desconhecido. Fernanda se deixou explorar e explorou de volta: o ombro largo, a cicatriz no lado direito das costelas que ela não perguntou de onde vinha, o peso dele sobre ela que era diferente do peso que ela conhecia e por isso mesmo delicioso.

Do outro lado da cama, Isabela cavalgava Rodrigo com uma desenvoltura que Fernanda observou com admiração genuína. Rodrigo tinha a cabeça jogada para trás, a mão espalmada na coxa de Isabela, completamente presente — e quando seus olhos encontraram os de Fernanda por sobre o ombro de Marcelo, havia ali a mesma coisa de sempre: eu te vejo, eu te quero, estamos juntos nisso.

Fernanda sorriu para o marido.

Rodrigo sorriu de volta.

Marcelo gozou nela com um gemido contido, a testa no pescoço de Fernanda, os dedos entrelaçados nos dela como se precisasse de âncora. Ela segurou, porque às vezes é isso — segurar alguém no momento em que eles se perdem.

Rodrigo e Isabela terminaram juntos, barulhentos e sem vergonha, e depois houve aquele silêncio bom que só existe depois.


Às duas da manhã os quatro estavam na cozinha, em roupões de hotel que Isabela havia trazido de uma viagem a Lisboa. Marcelo fazia ovos mexidos. Rodrigo havia encontrado um queijo coalho na geladeira e estava na sacada grelhando no espetinho de churrasco que Marcelo usava para outras coisas, mas serve, ele disse.

Fernanda ficou sentada no balcão, observando os três.

Isabela se encostou ao lado dela com uma xícara de chá.

— E a Florianópolis? — ela perguntou.

Fernanda piscou.

— Como você sabe de Florianópolis?

— Rodrigo contou. Disse que era a comemoração pela venda fechada.

Fernanda olhou para o marido lá fora, que estava discutindo com Marcelo a técnica correta de grelhar coalho às duas da manhã.

— A venda não fechou ainda.

— Vai fechar — Isabela disse, com aquela certeza tranquila. — E Florianópolis é linda em outubro. — Ela tomou um gole de chá. — Tem um chalé lá que a gente adora. Se vocês quiserem companhia.

Fernanda ficou quieta por um momento.

Do lado de fora, Rodrigo gargalhou de algo que Marcelo disse. Era um riso verdadeiro, daqueles que não se forja.

Fernanda olhou para Isabela.

— Me manda o endereço.

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