A Aposta de Lord Ashworth

Fotografia de época gerada por iA. Quatro homens jogando poker numa sala e quatro mulheres tomando chá na sala ao lado.

Inglaterra, 1887.

A sala de jogos de Greymont Hall cheirava a charuto cubano e brandy envelhecido. Quatro homens estavam sentados à mesa de carvalho havia três horas, e o relógio sobre a lareira marcava onze da noite com uma indiferença que apenas relógios têm.

Lord Edmund Ashworth, 41 anos, tinha as cartas próximas ao peito e uma expressão que não traía absolutamente nada — característica que o havia tornado, ao longo de vinte anos, o homem mais temido nas mesas de Londres. À sua direita, Sir Geoffrey Pelham, mais jovem, 35 anos, suava ligeiramente sob a gola engomada. Pelham jogava mal quando estava perdendo, e estava perdendo havia uma hora.

— As senhoras devem estar entediadas — disse o terceiro homem, Lord Thomas Harcourt, recostando-se na cadeira com a tranquilidade de quem ainda tinha boas cartas. — Talvez devêssemos encerrar.

— Encerrar? — Pelham riu, mas o riso não chegou aos olhos. — Harcourt, ainda tenho cartas na mão.

— E muito pouco na carteira — comentou o quarto homem, o coronel Whitmore, sem erguer os olhos do próprio leque de cartas.

A sala ficou em silêncio, exceto pelo crepitar do fogo.

Foi Pelham quem rompeu o silêncio, com a voz de quem havia bebido um copo a mais e perdido a noção do que era prudente dizer.

— Proponho algo diferente. — Ele colocou as cartas na mesa, viradas para baixo. — Uma vez que dinheiro já não é suficiente para tornar este jogo interessante.

Ashworth ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Era assim que ele jogava — deixando os outros se enforcarem com as próprias palavras.

— Proponho — Pelham continuou, e havia algo no brilho dos olhos dele que sugeria que a ideia não era tão espontânea quanto parecia — que, na próxima rodada, cada um de nós aposte algo mais… pessoal. Uma noite. Com a esposa do vencedor.

O silêncio que se seguiu durou exatamente três segundos.

— Pelham — Harcourt disse, num tom que era mais aviso do que repreensão. — Você está bêbado.

— Estou perfeitamente sóbrio. — Pelham se ajeitou na cadeira. — E, devo dizer, não acho que minha esposa se opusesse. Lady Pelham é… uma mulher de apetites generosos.

Whitmore tossiu, desconfortável. Ashworth permaneceu impassível, mas algo em seus olhos havia mudado — uma atenção mais aguda, como um predador que acaba de notar movimento na vegetação.

— E as senhoras teriam alguma opinião sobre isso? — Ashworth perguntou, a voz baixa e medida.

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— As senhoras — Pelham disse, com um sorriso que ele certamente acreditava ser charmoso — não precisam saber dos detalhes da aposta. Apenas que perderam… e ganharam, ao mesmo tempo.


O que Pelham não sabia — o que nenhum dos quatro homens sabia — era que, no salão ao lado, separado da sala de jogos por uma porta de carvalho e uma parede que conduzia som melhor do que qualquer um havia imaginado, quatro mulheres bordavam, bebiam chá e ouviam cada palavra.

Lady Victoria Ashworth, 38 anos, colocou a agulha de lado com um movimento que era quase imperceptível, exceto para as outras três, que a conheciam bem demais para não notar.

— Vocês ouviram isso? — perguntou Lady Pelham, 31 anos, sem erguer os olhos do bordado, a voz carregada de uma diversão mal disfarçada.

— Ouvi — disse Lady Harcourt, 36 anos, com aquele tom seco que era sua marca registrada.

— Meu marido acaba de me oferecer como prêmio de jogo — Lady Pelham continuou, agora sorrindo abertamente. — Sem me consultar, claro. Como sempre.

— E você está… contrariada? — perguntou a quarta mulher, Lady Whitmore, 40 anos, a mais discreta do grupo, mas cujos olhos brilhavam com algo que não era exatamente desaprovação.

Lady Pelham finalmente ergueu o olhar. Trocou um olhar com Victoria — um olhar longo, cheio de história compartilhada, das tardes de chá em que as quatro haviam, ao longo dos últimos dois anos, discutido exatamente o tipo de coisa que os maridos jamais suspeitariam que suas esposas discutiam.

— Geoffrey não tem ideia — Lady Pelham disse, baixinho — de que está prestes a nos dar exatamente o que pedimos há meses.

Victoria sorriu — um sorriso lento, calculado, o mesmo sorriso que fazia Ashworth perder o fôlego depois de vinte anos de casamento.

— Então talvez — ela disse — devêssemos garantir que o jogo seja… interessante.


Na sala de jogos, a rodada final havia começado.

Pelham apostou tudo o que tinha de orgulho na mão. Harcourt jogava com cautela. Whitmore, surpreendentemente, parecia o mais relaxado dos quatro — um homem que sabia algo que os outros não sabiam, embora ninguém prestasse atenção a isso.

E Ashworth.

Ashworth, que havia vivido vinte anos de casamento com Victoria e aprendido, em algum momento na última década, que era profundamente tolo subestimar o que aquela mulher era capaz de orquestrar. Ele não sabia exatamente o que estava por vir. Mas conhecia a esposa o suficiente para suspeitar que, se a sala ao lado tivesse ouvido a proposta de Pelham — e as paredes de Greymont Hall eram famosas por sua falta de discrição —, a noite ainda tinha muitas surpresas reservadas.

Ele olhou para suas cartas. Um par de reis e um ás.

Não era a melhor mão da noite. Mas, pela primeira vez em vinte anos de jogo, Edmund Ashworth fez algo que nunca havia feito.

Ele blefou mal. De propósito.

— Tudo — ele disse, empurrando o que restava de suas fichas para o centro da mesa, com uma expressão tensa demais, calculadamente tensa demais, para ser genuína.

Pelham, que estava desesperado para recuperar o orgulho, mordeu a isca instantaneamente.

— Aceito — ele disse, e virou suas cartas com um floreio. Um full house. — Sinto muito, Ashworth.

Ashworth virou as próprias cartas devagar. Par de reis.

— Parece — ele disse, com a voz perfeitamente controlada — que Lady Ashworth passará a noite na companhia de Sir Geoffrey.

Harcourt e Whitmore trocaram um olhar. Pelham, exultante, levantou-se da mesa com o tipo de sorriso que homens usam quando acreditam ter vencido algo importante.

— Excelente — ele disse. — Devo informá-la, ou prefere fazê-lo, Ashworth?

— Oh — Ashworth disse, levantando-se também, e havia algo na voz dele agora, algo quase divertido. — Acho que ela já sabe.


A porta do salão se abriu antes que qualquer um dos homens chegasse até ela.

As quatro mulheres estavam de pé, em fila, com as expressões mais serenas que Pelham jamais havia visto em um grupo de pessoas que supostamente acabara de descobrir terem sido apostadas como fichas de jogo.

Victoria deu um passo à frente. Ela vestia um robe de seda azul-marinho — não o vestido de jantar que usava horas antes — e Pelham levou um momento embaraçoso demais para notar que as quatro mulheres estavam, todas, igualmente trocadas de roupa.

— Senhores — Victoria disse, com a voz mais doce que Pelham já ouvira, o que deveria tê-lo alertado imediatamente. — Não foi preciso nos contar nada. As paredes desta casa são generosas com som, como certamente sabem.

Pelham empalideceu.

— Lady Ashworth, eu… a proposta foi… um exagero de momento, eu…

— Sir Geoffrey. — Victoria ergueu uma mão, e ele se calou instantaneamente. — Há quanto tempo está casado com Cordelia?

— Cinco anos.

— E em cinco anos — Victoria continuou, caminhando lentamente em direção a ele, com a graça de alguém que havia praticado exatamente essa caminhada na cabeça —, alguma vez perguntou à sua esposa o que ela desejava?

Lady Pelham — Cordelia — riu baixinho atrás dela.

— Geoffrey acha — ela disse, dirigindo-se aos outros três homens, mas com os olhos fixos no marido — que sou uma criatura delicada que precisa ser protegida de pensamentos impróprios. — Ela deu um passo à frente, e o robe dela, Pelham notou agora, era de um vermelho profundo que não combinava em nada com o decoro habitual de Cordelia. — A verdade, meu amor, é que há meses converso com Victoria, com Eleanor e com Margaret sobre exatamente este tipo de… arranjo.

Lady Harcourt — Eleanor — deu um passo à frente também.

— Vocês quatro passam as noites jogando cartas — ela disse, dirigindo-se aos maridos coletivamente, com aquele tom seco que fazia Harcourt suar mesmo quando ela não estava irritada. — E nós passamos as noites conversando sobre vocês. Adivinhem quem teve a ideia melhor?

Whitmore, surpreendentemente, começou a rir.

— Margaret — ele disse para a própria esposa, que sorria com a serenidade de quem aguardava esse momento há semanas. — Você sabia que isso aconteceria.

— Eu sugeri ao coronel — Lady Whitmore disse, calmamente — que ele encontrasse uma forma de fazer Geoffrey propor algo assim. Não foi difícil. Geoffrey bebe rápido demais e fala mais rápido ainda.

Pelham olhou em volta, completamente perdido.

— Então… vocês… orquestraram isso?

— Orquestramos — Victoria confirmou, agora parada diretamente na frente do marido. Ela colocou a mão no peito dele, sobre o lenço de seda. — Edmund sabia que algo estava por vir. Não os detalhes. Mas sabia que, se a oportunidade surgisse, eu não a deixaria passar.

Ashworth olhou para a esposa com uma expressão que misturava admiração e algo mais quente.

— Vinte anos de casamento — ele disse, baixinho, só para ela — e você continua a me surpreender.

— Bom — Victoria respondeu, no mesmo tom. — Seria um casamento muito entediante se eu parasse.


O que se seguiu não foi exatamente o que Pelham havia proposto — e foi, ao mesmo tempo, exatamente aquilo, só que de cabeça para baixo.

Não houve transferência de propriedade. Houve, em vez disso, uma negociação aberta, conduzida pelas quatro mulheres com a precisão de generais planejando uma campanha — porque era exatamente isso que haviam feito, durante semanas, nas tardes de chá que os maridos acreditavam serem sobre bordado e fofoca.

Cordelia foi até Ashworth, que ainda segurava as cartas que o haviam, supostamente, “vencido” — Pelham só entenderia depois que Ashworth jamais teria perdido aquela mão se não tivesse decidido perder.

— Lord Ashworth — ela disse, com um sorriso que era pura travessura. — Parece que sou sua, por esta noite.

— Parece que sim — ele respondeu, e havia calor genuíno na voz dele, não o constrangimento que Pelham esperava. — Embora eu suspeite que isso tenha sido sua ideia desde o início.

— Culpada — Cordelia admitiu, sem nenhum remorso.

Victoria, por sua vez, virou-se para Pelham — o homem que, vinte minutos antes, havia tentado apostá-la como se ela fosse uma moeda de troca.

— Sir Geoffrey — ela disse, e a voz dela tinha mudado, mais baixa agora, mais íntima. — Já que foi sua a ideia original… seria rude de nossa parte não permitir que você também participasse, não acha?

Pelham engoliu em seco.

— Lady Ashworth, eu…

— Edmund não se importa — Victoria disse, olhando por cima do ombro para o marido, que ergueu sua taça em confirmação silenciosa, os olhos brilhando de uma forma que Pelham nunca havia visto em um homem cuja esposa estava prestes a desaparecer com outro. — Na verdade — Victoria continuou, virando-se de novo para Pelham com um sorriso lento —, acho que ele vai gostar de assistir.


O quarto de hóspedes do segundo andar de Greymont Hall tinha uma cama de dossel, cortinas pesadas de veludo verde-escuro, e lareira acesa que Margaret — Lady Whitmore — havia providenciado horas antes, prevendo exatamente esse desfecho.

Victoria entrou primeiro, com Ashworth ao seu lado e Pelham seguindo, ainda meio atônito com a velocidade com que toda a noite havia virado de cabeça para baixo.

— Sente-se — Victoria disse a Pelham, indicando a poltrona junto à lareira, com a autoridade de uma mulher que jamais havia precisado pedir nada duas vezes.

Pelham sentou-se.

Victoria virou-se para o marido. Vinte anos de casamento haviam construído entre eles uma linguagem que não precisava de palavras — o jeito como ela inclinou a cabeça, o jeito como ele se aproximou, as mãos dele encontrando a cintura dela sob o robe de seda com a familiaridade de quem conhecia cada centímetro daquele corpo e ainda assim a desejava como no primeiro dia.

— Você sabia — Ashworth murmurou contra o pescoço dela, desfazendo o nó do robe — que eu blefei aquela mão de propósito?

— Eu sabia — Victoria respondeu, a voz já mais baixa, mais quente. — Você sempre aperta a mandíbula quando está blefando bem. E hoje você apertou de propósito demais.

— Vinte anos — ele murmurou, e o robe caiu.

Da poltrona, Pelham observava com a respiração presa na garganta. Diante dele, Victoria Ashworth — uma mulher que ele conhecia havia anos apenas como a esposa elegante e reservada de Edmund, sempre impecável nos jantares formais — era agora outra pessoa completamente. Ou talvez, ele pensou, a mesma pessoa, apenas sem as camadas que a sociedade exigia que ela vestisse.

Ashworth a beijou devagar, as mãos percorrendo as curvas que vinte anos não haviam diminuído em nada — pelo contrário. Victoria gemeu baixinho contra a boca dele, as mãos dela desfazendo os botões do colete dele com uma pressa que contradizia a elegância de minutos antes.

— Geoffrey — Victoria disse, sem se afastar do marido, olhando por cima do ombro para o homem na poltrona. — Você pode se aproximar. Prometo que não vai se arrepender.

Pelham levantou-se como se tivesse sido chamado por um comando que seu corpo obedeceu antes de sua mente processar.

O que se seguiu foi, para Pelham, uma educação que ele jamais havia imaginado receber naquela casa. Victoria o guiou com a mesma autoridade tranquila com que conduzia tudo — as mãos dele onde ela queria, a boca dele onde ela precisava, enquanto Ashworth a tomava por trás com a familiaridade confiante de um homem que sabia exatamente como sua esposa gostava de ser tocada, e que não sentia nenhuma ameaça em compartilhar aquele conhecimento com outro homem na sala.

Victoria gemeu o nome do marido enquanto a boca de Pelham explorava seu corpo com uma avidez nova, descoberta. Ashworth observava o rosto da esposa por cima do ombro dela — aquela expressão de prazer que ele conhecia tão bem, agora intensificada por duas fontes de atenção em vez de uma — e sentiu não ciúme, mas um orgulho profundo, quase territorial: esta mulher extraordinária é minha esposa, e ela está se permitindo ser ainda mais extraordinária esta noite.

Quando Victoria gozou pela primeira vez, foi com o nome de Edmund nos lábios e os dedos de Pelham ainda entre suas pernas — e a contradição daquilo, em vez de diminuir qualquer um dos dois homens, parecia apenas confirmar para ambos que aquela noite não tinha vencedores nem perdedores, apenas três pessoas que haviam, por uma noite, abandonado completamente as regras que governavam suas vidas durante o dia.


No salão abaixo, Cordelia, Eleanor e Margaret terminavam o chá com a tranquilidade de mulheres que sabiam exatamente como a noite terminaria — porque haviam planejado cada detalhe.

— Quanto tempo até Geoffrey perceber — Eleanor perguntou, servindo mais chá — que ele acabou de “perder” a esposa para o homem mais perigoso de Londres, e que isso foi, na verdade, exatamente o que ele sempre quis e nunca teve coragem de pedir?

— Ele já percebeu — Cordelia disse, com um sorriso satisfeito, olhando para o teto na direção aproximada do quarto de hóspedes. — Eu conheço aquele gemido.

As três mulheres riram.

— E quanto a você, Margaret? — Eleanor perguntou. — O coronel não fez aposta nenhuma esta noite.

Margaret sorriu — um sorriso lento, paciente, o sorriso de uma mulher que jogava o jogo mais longo de todos.

— O coronel — ela disse, servindo-se de mais uma xícara — está, neste momento, no escritório dele, esperando por mim. Achamos melhor não envolver Pelham duas vezes na mesma noite.

— Margaret Whitmore — Cordelia disse, fingindo escândalo. — Quantas surpresas você ainda guarda?

— Querida — Margaret respondeu, levantando-se e ajeitando o robe. — Sou casada há quinze anos. Surpresas são a única coisa que mantém um casamento interessante.

Ela se despediu das outras com um aceno gracioso e subiu as escadas — não em direção ao quarto de hóspedes, mas para o escritório do marido, onde o coronel Whitmore a esperava com a porta entreaberta e um sorriso que dizia que ele também, à sua maneira silenciosa, havia planejado essa noite há muito tempo.


Pela manhã, no café da manhã formal, os quatro casais se sentaram à mesa como se nada houvesse acontecido — os homens trocando comentários sobre o tempo, as mulheres conversando sobre os planos para o dia.

Apenas Pelham parecia incapaz de olhar diretamente para Ashworth, que comia seus ovos com a serenidade de sempre.

— Sir Geoffrey — Ashworth disse, finalmente, baixando o jornal. — Sugiro que joguemos cartas novamente esta noite.

Pelham engasgou com o chá.

— Eu… talvez seja melhor descansarmos esta noite, Lord Ashworth.

— Bobagem — Victoria disse, sem erguer os olhos do prato, mas com aquele sorriso lento nos lábios. — Eleanor mencionou que adoraria conhecer melhor o coronel Whitmore. E Margaret estava curiosa sobre você, Sir Geoffrey.

Pelham olhou para Cordelia, em busca de socorro.

Cordelia apenas sorriu e tomou um gole de chá.

— Vai ser uma semana muito interessante — ela disse.

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