Há dez anos, a palavra "poliamor" ainda soava como algo distante, quase de ficção científica social. Em 2016, quando a Justiça de São Paulo reconheceu pela primeira vez uma união poliafetiva, a notícia circulou como curiosidade jurídica — um caso isolado, tratado por muitos como exceção que confirmava a regra da monogamia. Dez anos depois, em 2026, essa mesma palavra virou pauta de reportagem, tema de pesquisa acadêmica e assunto recorrente entre amigos no happy hour. O que aconteceu no meio do caminho não foi um evento único, mas uma virada lenta e acumulada — e os números ajudam a explicar por quê.

Hoje, mais de 2,1 milhões de brasileiros se identificam como praticantes de não monogamia ética, segundo levantamentos recentes. As buscas por "poliamor" no Google cresceram 340% entre 2019 e 2025, um salto que não se explica por modismo passageiro, mas por gente buscando entender algo que já vê ao redor — no trabalho, no círculo de amigos, nas redes sociais. Entre os mais jovens, de 18 a 35 anos, 68% afirmam estar abertos a compreender o modelo poliafetivo, mesmo sem necessariamente vivê-lo. É a diferença entre curiosidade e prática: uma geração inteira deixou de estranhar a ideia, ainda que a maioria continue optando pela monogamia no dia a dia.

Essa mudança de percepção tem nome e explicação entre especialistas. Para o sexólogo Wantuir Rock, o crescimento do poliamor no Brasil "é também uma resposta ao esgotamento do modelo nuclear" — não como negação da monogamia, mas como questionamento da ideia de que ela seja a única forma legítima de amar. Faz sentido: dividir responsabilidades emocionais e até econômicas entre mais de duas pessoas não é, para quem vive essa realidade, uma fuga do compromisso, mas outra arquitetura de compromisso. É um ponto que frequentemente se perde no debate público, que ainda trata a não monogamia como ausência de estrutura, quando na prática ela costuma exigir mais estrutura, não menos — mais conversa, mais acordo explícito, mais revisão constante do que funciona para quem está envolvido.

Vale lembrar que poliamor é só uma fatia de um universo bem mais amplo. Pesquisas mostram que 53% dos brasileiros já viveram alguma forma de relacionamento não monogâmico ao longo da vida, incluindo relações abertas, polifidelidade, ménage e o próprio swing — cada um com sua lógica própria, suas regras próprias, seu tipo de intimidade. O poliamor tende a receber mais holofote na imprensa porque desafia diretamente a ideia romântica do "um parceiro para a vida toda", mas quem já transita pelo meio liberal sabe que essa é só uma entre várias formas possíveis de organizar o amor e o desejo fora do roteiro tradicional.

O que essa virada cultural realmente diz não é que o Brasil está abandonando a monogamia em massa — a maioria segue monogâmica, e provavelmente vai continuar assim. O que mudou é o espaço para a conversa. Perguntar "e se a gente tentasse diferente?" deixou de ser sinal de relacionamento em crise para virar, cada vez mais, sinal de relacionamento maduro o suficiente para se questionar. E é exatamente nesse espaço — entre a curiosidade crescente e a coragem de experimentar — que casais que já vivem o meio liberal têm algo valioso a oferecer: não a teoria do debate, mas a prática de quem construiu, no dia a dia, uma forma própria e honesta de amar.

Jana e Alex
Escrito por

Casal Libido — Jana & Alex

Jana & Alex vivem o meio liberal desde 2018, organizam as festas Libi em Petrolina-PE e criaram o curso O Código e o Mô App. Escrevem sobre o que vivem — sem tabu e sem romantizar o que é complexo.

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