O áudio da chamada tinha durado quarenta minutos.
Bianca os conhecia do YSOS — tinha visto o perfil do casal meses antes, mandado uma mensagem curta, recebido outra de volta. A conversa tinha fluído com uma naturalidade que surpreendeu os três. Ela era direta: sabia o que queria, sabia o que não queria, e tinha a habilidade rara de dizer as duas coisas sem fazer ninguém se sentir julgado.
A noite foi combinada para um sábado. Casa de Ricardo e Paula. 21h.
Ela chegou às 21h02.
Ricardo abriu a porta e por um segundo ficou parado. Bianca era diferente das fotos — não menos bonita, diferente. As fotos tinham capturado a forma. A presença, não. Ela entrou com o sorriso de quem já decidiu que a noite vai ser boa e só está aguardando o momento certo para começar.
— Eu trouxe vinho — ela disse, estendendo a garrafa. — Mas não precisa abrir agora se vocês já estão no ritmo.
Paula apareceu do corredor e as duas se cumprimentaram com um abraço que durou um segundo a mais do que o necessário. Quando se separaram, havia algo no ar que Ricardo reconheceu — aquela tensão específica, elétrica, que precede as noites que ficam na memória.
Eles abriram o vinho.
A conversa durou uma hora. Não por protocolo — por prazer genuíno. Bianca tinha opiniões sobre tudo, ria fácil e fazia perguntas que mostravam que estava presente de verdade, não apenas esperando o momento de ir para o quarto.
Em algum ponto, Paula cruzou as pernas na direção dela. Bianca notou.
Em outro ponto, Ricardo colocou a mão no joelho de Paula ao fazer um comentário qualquer. Bianca notou isso também.
Quando o segundo copo de vinho acabou, foi ela quem disse:
— Podemos continuar essa conversa em outro cômodo?
Não era pergunta. Era convite.
O quarto tinha a luz baixa que Paula tinha preparado antes — não romanticamente calculada, só confortável. O suficiente para ver sem expor demais. O suficiente para que tudo parecesse acontecer dentro de uma bolha separada do mundo lá fora.
Bianca sentou na beira da cama e olhou para os dois com uma expressão que Ricardo só conseguiu descrever depois como atenção. Ela estava completamente presente. Completamente calma. Completamente interessada.
— Vocês primeiro — ela disse. — Quero ver como vocês são juntos.
Paula olhou para Ricardo. Ele para ela. E então ele colocou a mão no rosto dela do jeito que colocava quando queriam de verdade — não para performance, para ela — e a beijou devagar.
Bianca assistiu em silêncio por um momento. Depois disse, baixinho:
— Assim.
O beijo entre Ricardo e Paula durou o tempo que precisava durar. Quando eles se separaram, Bianca já tinha tirado os sapatos e estava de joelhos na cama atrás de Paula, o cabelo caindo sobre o ombro dela, os lábios encostando no pescoço dela com uma leveza que fez Paula fechar os olhos imediatamente.
— Tá bom? — Bianca murmurou contra a pele dela.
— Muito — Paula respondeu, e a palavra saiu com um ar de rendição que Ricardo raramente ouvia.
Ele ficou parado por um momento, apenas observando. Havia algo profundamente erótico em ver Paula se entregar daquele jeito para alguém que elas tinham se conhecido formalmente há duas horas — e ao mesmo tempo havia algo completamente natural nisso, como se as semanas de conversa antes tivessem construído uma intimidade que o tempo real não media.
Bianca olhou para ele por cima do ombro de Paula.
— Você também pode participar — ela disse, com um sorriso que continha o universo inteiro.
O que aconteceu nas horas seguintes não tinha uma sequência clara na memória de nenhum dos três. Era mais uma série de imagens, de sensações, de momentos que surgiam e se dissolviam.
Paula de costas para Bianca, as mãos dela nos quadris de Paula enquanto Ricardo a olhava nos olhos e ela o segurava pelo pescoço. Os três encontrando um ritmo que nenhum deles tinha planejado mas que surgiu como se tivesse sempre existido.
Bianca era silenciosa de um jeito que intensificava tudo — ela não fingia. Quando algo era bom ela deixava o corpo dizer, e o corpo dela era eloquente. Quando quis algo diferente, pediu com a precisão de quem sabe exatamente o vocabulário certo para cada desejo.
— Assim — ela dizia. E eles obedeciam. E era exatamente assim.
Houve um momento em que os três pararam ao mesmo tempo, como que por acordo tácito, respirando juntos no escuro, os corpos ainda entrelaçados, e ninguém disse nada porque não havia nada que precisasse ser dito.
Paula foi a primeira a rir. Baixinho, para si mesma.
— O quê? — Bianca perguntou.
— Nada. — Paula virou o rosto para ela. — Tudo.
Bianca ficou mais uma hora depois. Tomaram água, conversaram sobre coisas absolutamente banais — um documentário que Bianca tinha assistido, um restaurante que Ricardo queria conhecer, os planos de Paula para uma viagem que ainda não tinha data.
Quando ela foi embora, abraçou os dois no corredor com a mesma naturalidade de quem está saindo de uma jantar com amigos de longa data.
— Foi muito bom — ela disse, na porta. — Os dois são ótimos juntos.
E desceu as escadas sem olhar para trás.
Ricardo fechou a porta. Paula estava encostada na parede do corredor, os braços cruzados, o sorriso de quem está guardando algo bom dentro do peito.
— E aí? — ele perguntou.
Ela ficou em silêncio por um momento. Depois:
— Semana que vem ela perguntou se a gente topava de novo.
Ricardo sorriu.
— E você disse?
Paula se despregou da parede e passou por ele em direção ao quarto, roçando o ombro no dele de passagem.
— Disse que eu ia perguntar pra você.
Ele apagou a luz do corredor e foi atrás dela.
Casal Libido
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